Essa coluna poderia cobrir a vitória do Anápolis sobre o Goiânia no Goianão 4Play 2025, por 4×1, na última quarta-feira, 29. O título do texto bem que poderia ser: “Na rinha de galos, quem canta mais alto é o da Boa Vista”; ou “Bateu em bêbado! Galo da comarca goleia o carijó”… Afinal de contas, mesmo com um a menos por mais da metade do segundo tempo, o Anápolis manteve o largo resultado.
Num momento de extrema imaturidade, num mesmíssimo e único lance, o atacante João Celeri (ex-Vila Nova e campeão goiano com o Grêmio Anápolis em 2020) leva dois amarelos por ter caído na provocação dos lanterninhas do campeonato. O camisa 9 do Galo forte brigador desfalca a equipe por ter que cumprir a suspensão no próximo jogo, domingo, 02, contra o ABCAT. A partida vai ocorrer fora de casa, na cidade de Ouvidor-GO e vale a 4ª posição na tabela de classificação do estadual.
Logo após ver o chocolate do Anápolis, ao sair do estádio, ligo o som do carro. O rádio sintonizado na CBN transmite uma penosa entrevista de Adson Batista, presidente do Atlético Goiano. Nada contra a pessoa dele que até foi atleta do meu velho pai, quando este último ainda era preparador físico de futebol aqui mesmo, na Manchester goiana. Mas, o fato é que o chefe do Dragão parecia estar no Convento da Mãe Dolorosa!
Dizendo ter visto a pior partida do Atlético nos últimos 20 anos, o presidente que mais parece um popstar (porque nem o capitão, nem o goleiro, nem o meia-atacante, pontas ou até mesmo o técnico do clube aparecem em entrevistas. Só ele, o todo poderoso chefão fala pelo time)… revela um inchaço muito grande: “O Atlético é o tricampeão goiano. A partir do momento que outro levantar a taça, já não é mais nada”, refletiu.
Do alto de sua arrogância de campeão estadual, se esquece que inchaço é sintoma de doença e não saúde ou sucesso. O Dragão foi rebaixado em penúltimo lugar no Brasileirão de 2024. Além de não vencer para alegrar o seu torcedor, tem integrantes mudos: jogadores e comissão técnica que, assim, jamais se sentirão chamados na responsabilidade. Até porque estão todos silenciados pela imposição do dono da palavra.
Nossos avós viveram a geração que ouviu os grandes acontecimentos do mundo e da vida pelo rádio. Desde as novelas aos programas românticos, daqueles “dedique uma canção a quem você ama”, até os grandes eventos esportivos e os discursos dos líderes políticos. Talvez por isso, eles, nossos antepassados são uma geração mais atenta. Hoje, há excesso de informação. Tudo é tão demais ao mesmo tempo que as pessoas se esquecem de prestar a atenção no peso do conjunto da obra: gestual, linguagem corporal, olhar, tonalidade e volume da voz… Tudo é relevante. Tudo conta e muito!
Tem horas que o silêncio grita e é mais que necessário. Adson Batista precisa ouvir mais, calar-se e trabalhar pelo clube. Entendendo que quem fala demais dá bom a dia a cavalo! E parafraseando Machado de Assis: “há coisas que se diz melhor calando-se”. Teria sido melhor se o chefão tivesse se calado ao invés de agredir a repórter Nathália Freitas, pela condição de gênero dela, a mulher.
Raridades no espaço esportivo e numa luta constante pela paridade, não posso falar por elas até porque, como conceituado pela filósofa Djamila Ribeiro, definitivamente não é o meu “lugar de fala”. Mas, jamais o presidente do Atlético, ao se sentir incomodado com uma opinião divergente de uma jornalista, poderia ter atacado ou invalidado o pensamento dela com infelizes dizeres “você achou o jogador bonitinho, por isso tá falando que ele jogou bem… Vitimiza e faz barraco!”
Nathália, após o ataque, antes de se retirar bravamente da entrevista, reage e coloca o Adson no lugar dele: “você fez essa brincadeira porque sou mulher, talvez a única aqui, e isso acaba afetando o meu profissionalismo”. Ela chorou ao vivo e eu ouvi as suas lágrimas e me solidarizei. Esse machismo, essa prepotência desse dirigente centralizador e em franca derrocada, apenas revela a tacanhice e a crise que nem ele mesmo consegue resolver.
O barraco, a bem da verdade, está armado entre o torcedor atleticano e essa diretoria que certamente não tem sequer uma integrante mulher; como também não valoriza o futebol feminino; e tampouco percebe a gravidade da crise em que colocou o futebol goiano. Vergonhoso para o Centro-Oeste não poder trazer uma única partida do futebol de elite, porque todos os seus clubes estão rebaixados! Certamente, não falta trabalho ao Adson e aos clubes de Goiás. O que tá sobrando é a overdose: de discurso, historinha triste e a evidência da misoginia, prática abominável que só poderia vir mesmo de quem está bem abaixo de todo e qualquer nível. Chega de desculpas! O ano nem começou e a bola do machista tá murcha.